A fala do comentarista Demétrio Magnoli da GLOBONEWS expõe o ambiente de intimidação institucional, reacende o debate sobre liberdade de expressão e aprofunda a crise de confiança no STF
A declaração foi breve, cuidadosa e, ainda assim, contundente. Em um comentário recente na Globonews, um jornalista experiente admitiu publicamente ter medo de fazer observações sobre o Supremo Tribunal Federal. Medo não de errar tecnicamente, mas de ultrapassar limites cada vez mais difusos, nos quais perguntas e opiniões podem ser reinterpretadas como ataques à democracia ou à própria Corte.
O comentário ocorreu durante o debate sobre os limites da liberdade de expressão, tema que o próprio STF colocou em pauta. Antes de desenvolver seu raciocínio, o jornalista chegou a pedir “desculpas à história”, numa formulação reveladora: reconhecia a importância do debate, mas sinalizava que havia um constrangimento real em fazê-lo.
O que torna o episódio relevante não é apenas o conteúdo da crítica, mas o fato de ela ter vindo de alguém inserido em um dos maiores grupos de mídia do país — historicamente alinhado ao protagonismo recente do Supremo.
A cronologia do ambiente de tensão
Para entender o peso dessa fala, é preciso observar o encadeamento dos acontecimentos que moldaram o atual ambiente institucional.
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A expansão do protagonismo do STF
Desde meados da década de 2010, o Supremo passou a ocupar um espaço central na vida política nacional. Em meio a crises sucessivas nos Poderes Executivos e Legislativos, a Corte assumiu funções cada vez mais amplas, decidindo sobre temas eleitorais, penais, regulatórios e comunicacionais. Esse movimento foi inicialmente visto como necessário para garantir estabilidade institucional. Com o tempo, porém, a excepcionalidade se tornou regra.
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Inquéritos e conceitos jurídicos abertos
Nos anos seguintes, o STF passou a conduzir investigações de ofício e a julgar casos nos quais a própria Corte ou seus membros figuravam como vítimas ou partes interessadas. Paralelamente, conceitos como “desinformação”, “ataque à democracia” e “ameaça institucional” passaram a ser usados de forma ampla e pouco delimitados. Na prática, isso criou um ambiente em que o risco jurídico da crítica se tornou imprevisível.
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Declarações públicas de endurecimento
Em manifestações públicas e notas oficiais, ministros do Supremo reforçaram que seriam duros — até “implacáveis”, segundo algumas declarações — contra narrativas que colocassem em dúvida a legitimidade da Corte ou do processo democrático. Embora a defesa institucional seja legítima, a ausência de critérios objetivos claros ampliou a sensação de que o espaço para questionamento estava se estreitando.
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O silêncio da grande imprensa — até agora
Durante esse período, a grande imprensa brasileira manteve uma postura majoritariamente cautelosa. Temas sensíveis, como possíveis conflitos de interesse envolvendo ministros, relações familiares, viagens – como é o caso de Dias Toffoli que viajou em jatinho com advogado do banco máster e também o vinculo de familiares como seus irmãos e primos com Resort de luxo no Paraná que tinha um alto investimento no máster; ou vínculos com partes interessadas em processos relevantes, como no caso da esposa de Alexandre de Morais que teve revelado um contrato milionário com Banco Máster; raramente foram tratados de forma aprofundada.
Esses assuntos circularam principalmente em redes sociais, veículos independentes ou imprensa estrangeira — quase sempre rotulados como “polêmicos” ou “controversos”, sem investigação sistemática pelos grandes jornais e emissoras.
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A fala que rompe o padrão
É nesse contexto que surge a declaração do comentarista da GLOBONEWS. Ao admitir medo, ele não fez acusações diretas nem questionou ministros nominalmente. Mas registrou algo ainda mais grave: o ambiente se tornou hostil à crítica, inclusive para quem sempre atuou dentro dos limites do discurso institucional.
Autocensura: o efeito colateral mais perigoso
O episódio evidencia que o problema atual não é censura explícita, mas autocensura preventiva. Jornalistas e analistas passam a evitar certos temas não porque sejam ilegais, mas porque se tornaram arriscados.
Esse mecanismo é particularmente danoso por que:
- Não deixa rastros formais,
- Não gera atos administrativos questionáveis,
- E se apresenta como prudência profissional.
Na prática, porém, empobrece o debate público e blinda instituições do escrutínio democrático.
Um Supremo forte demais para ser questionado?
O STF brasileiro se tornou uma das cortes constitucionais mais poderosas do mundo. O problema não está na força em si, mas na ausência de contrapesos proporcionais.
Hoje, a Corte: Interpreta a Constituição,define os limites do discurso que a critica,reage publicamente a questionamentos, em certos casos, julga controvérsias nas quais sua própria atuação está em jogo. Esse arranjo gera um paradoxo institucional: o guardião da Constituição passa a ser percebido como uma instituição que não admite ser guardada pela crítica pública.
Os efeitos em médio prazo sobre a democracia
As conseqüências desse cenário não são imediatas, mas são profundas.
- Empobrecimento do debate público
Decisões deixa de ser confrontadas por argumentos qualificados e passam a circular em ambientes fechados ou polarizados. - Radicalização da crítica
O que não encontra espaço institucional migra para canais informais, muitas vezes menos responsáveis e mais agressivos. - Erosão da confiança institucional
A legitimidade do Supremo deixa de se apoiar na confiança e passa a depender do temor — uma base instável para qualquer democracia.
Democracias não se sustentam quando a crítica é tratada como ameaça e o questionamento como desvio.
Um alerta que não deveria ser ignorado
A fala do comentarista da GLOBONEWS não é um ataque ao Supremo, nem uma guinada editorial da grande imprensa. É um sinal de alerta institucional. Indica que o equilíbrio entre poder e liberdade de crítica se deslocou perigosamente. Instituições verdadeiramente fortes não temem perguntas, não se ressentem do escrutínio e não confundem crítica com deslegitimação. Quando até quem sempre falou com cautela admite medo, o problema já não está no discurso — está no modo como o poder vem sendo exercido.
