A recente derrota de Otoni de Paula na eleição para a presidência da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) da Câmara dos Deputados, onde foi superado por Gilberto Nascimento por 117 votos a 61, marcou um ponto de inflexão em sua trajetória política. Essa derrota refletiu não apenas as divisões internas da bancada evangélica, mas também evidenciou o isolamento de Otoni dentro do grupo, especialmente após sua aproximação com o governo Lula.
Historicamente aliado de Jair Bolsonaro, Otoni de Paula começou a se distanciar do ex-presidente ao adotar uma postura mais conciliadora em relação ao governo atual. Esse movimento gerou descontentamento entre líderes evangélicos alinhados ao bolsonarismo, como o pastor Silas Malafaia, que apoiou abertamente a candidatura de Gilberto Nascimento. Tradicionalmente pautada pelo consenso, a eleição evidenciou uma polarização inédita na bancada. Após a derrota, Otoni expressou ressentimento em relação a Bolsonaro, atribuindo a ele a responsabilidade por sua derrota e declarando-se um “ex-bolsonarista”, afirmando que não ofereceria mais solidariedade ao ex-presidente e que, se pudesse, não repetiria suas ações passadas.
Além de Otoni, outros políticos também seguiram caminhos de distanciamento do bolsonarismo, refletindo a volatilidade das alianças políticas no país. Entre eles, Alexandre Frota eleito deputado federal por São Paulo em 2018 pelo PSL, Frota foi um aliado de destaque de Bolsonaro. Entretanto, críticas públicas ao presidente e divergências internas resultaram em sua expulsão do PSL em 2019. Posteriormente, filiou-se ao PSDB, mas continuou a enfrentar desafios políticos. Em 2022, candidatou-se a deputado estadual por São Paulo, obtendo 24.224 votos, insuficientes para a eleição.
De forma semelhante, Joice Hasselmann, que outrora foi uma das principais vozes do bolsonarismo, experimentou uma trajetória de ascensão seguida por um declínio acentuado após se afastar do apoio que antes sustentava sua carreira. Em 2018, Joice destacou-se como uma fervorosa apoiadora de Bolsonaro, sendo eleita deputada federal com expressivos 1.078.666 votos e ocupando posições de liderança no Congresso Nacional. Contudo, conflitos internos e divergências com Bolsonaro levaram-na a adotar uma postura cada vez mais autocrítica e a se distanciar dos antigos aliados. Esse rompimento foi decisivo para seu declínio: após ter sofrido uma derrota marcante como vereadora com 1.673 votos um revés que sinalizou uma virada em sua trajetória, ela anunciou sua aposentadoria da política. A diferença entre o período em que ela apoiava intensamente o bolsonarismo e o momento em que rompeu com esse apoio ficou evidenciada pela drástica queda em sua popularidade e na reconfiguração de suas bases eleitorais.
Esses casos exemplificam como o afastamento de Bolsonaro pode resultar em perdas eleitorais significativas, evidenciando a volatilidade das alianças políticas e a reconfiguração das bases de apoio no cenário brasileiro.
No cenário político do Rio de Janeiro, a derrota de Otoni pode levar o prefeito Eduardo Paes a reavaliar suas estratégias de articulação com grupos evangélicos, especialmente considerando as eleições de 2026. A influência do bolsonarismo na bancada evangélica permanece significativa, indicando que alianças futuras precisarão ser cuidadosamente repensadas. Para Otoni de Paula, o futuro político apresenta desafios consideráveis. Isolado dentro da bancada evangélica e afastado de seu antigo aliado, ele precisará redefinir suas alianças e estratégias para manter sua relevância no cenário político nacional. Sua capacidade de navegar nesse novo contexto determinará seu papel nas próximas disputas eleitorais e, de forma mais ampla, na política brasileira.
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